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Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

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Aula de fração para Belinha

Publicado em 20/12/2020 Comente!

Aula de fração para Belinha

 

Não me lembro do dia nem da situação em que conheci Izabela Sgarabotto, a Belinha, filha dos meus vizinhos Juçanã e Luiz Antônio e irmã da Júnia, uns cinco anos mais velha. Morávamos no mesmo bloco (um andar de distância) do Condomínio São Conrado, na Avenida Madre Benvenuta, em frente ao Bardhal, na Trindade. Nem recordo como ficamos tão amigas. Seus pais trabalhavam na Eletrosul e creio que nessa época a mãe ainda estudava Direito à noite. Eram muito ocupados e raramente dispunham do tempo de que eu dispunha para dar atenção à menina, e deve ter sido isso que nos aproximou, pois sempre fui de arrebanhar criança para comer na minha casa ou para passear de carro, quando a cadeirinha especial não era exigida por lei.

Mas me lembro como se fosse hoje das vezes em que a levei à praia comigo e almoçamos juntas, em restaurante. Uma vez ela não comeu quase nada no almoço, só batata frita, e quando voltamos para casa, já lá para o meio da tarde, ela disse que estava com fome e tomou um baita prato de sopa que eu tinha na geladeira. Gosto muito de ter canja para tomar no jantar. E ela nem gostava de sopa, disse-me a mãe, depois, quando lhe relatei como fora nosso dia. Isso comprova minha teoria de que a melhor cozinheira é a fome. Pessoa faminta até se esquece de que não gosta disso ou daquilo. Quer é matar quem a está matando. Faço questão desses relatórios porque acho indispensáveis para deixar os pais mais seguros de que sou uma excelente avó ou tia de aluguel. De aluguel, não. Do coração, no nosso caso.

Como sempre perguntava como ia nos estudos, um dia Belinha revelou que estava difícil de entender frações, matéria que estava estudando nas aulas de matemática. Resolvi o problema dela com uma maçã e uns minutos de conversa sobre o que é fração, o que é numerador e denominador. Estando nos primeiros anos do fundamental, a aula de frações compreendia só as noções básicas.

Peguei a maçã como a tirei da geladeira e disse:

- Belinha, tu aprendeste número inteiro, metade, um quarto, um oitavo, não foi?

- Foi, tia.

-Tu sabes o que esta maçã representa, nesses conceitos que a professora deu em sala?

- Não sei.

- Esta maçã, como aqui está, é o número inteiro. Agora eu vou te mostrar como transformá-la em frações.

Belinha era toda ouvidos e arregalou os olhos. Nem piscava. Nem imaginava que num passe de mágica ela ia aprender os conceitos de fração. E para ensinar um meio (1/2) cortei a maçã pela metade.

- Olha, Belinha, um inteiro é igual a dois meios (2/2)! Que é o mesmo que duas metades!

E juntava as metades, fazendo a maçã inteira novamente, dando para ela pegar as metades e fazer a maçã inteira de novo, tantas vezes quantas quisesse. Criança precisa sentir as coisas reais. Criança não entende conceito abstrato. Depois peguei cada metade e cortei ao meio, fazendo quatro quartos (4/4). E repetia a operação de juntar as quatro partes e fazer a maçã inteira. Sempre deixando-a pegar, separar, juntar os pedaços. Dois quartos (2/4) fazem um meio (1/2) e dois meios (2/2) fazem a maçã inteira, o que na aula ela aprendeu como o número inteiro. Com a maçã cortada na mão, o que parecia tão abstrato na aula ficava mais concreto na cozinha da tia Lia. Em seguida peguei cada quarto e cortei ao meio, fazendo os oito oitavos (8/8), que juntos também dão o inteiro. O número inteiro, que na aula não significava nada para Belinha.

Então aproveitei para explicar a Belinha o conceito de numerador e denominador, os números que ficam acima do traço da fração e abaixo dele. O denominador é o número de baixo do traço e indica em quantas partes o inteiro foi dividido. No caso da nossa maçã, oito. O numerador é o número que fica acima do traço e indica quantos partes do todo foram tomadas. Se eu digo que quero comer três oitavos (3/8) da maçã, vou pegar três daqueles oito pedacinhos.

E assim, brincando, Belinha aprendeu o princípio básico de fração. Certa vez, de carona com seus pais, voltando do casamento da filha de uma vizinha, a que eu fora de táxi por receio de não encontrar estacionamento, eu disse para eles como havia ensinado fração a Belinha. Luiz Antônio se espantou:

- Não sabia que vocês tinham esses papos-cabeça...

- Claro, o que vou conversar com uma criança além dos seus brinquedos prediletos e dos seus estudos? E eu sempre foco muito nos estudos dos meus amiguinhos. Gosto de provocar sua lógica, seu raciocínio, conhecer sua visão de mundo. Brincando com as crianças no Século XXI, sou um arremedo de Sócrates, que dava aulas de filosofia para seus alunos no jardim de Academo, em Atenas, de onde veio o nome academia, que chegou ao português por meio do francês, no século XV.

Outra vez, falando sobre Monteiro Lobato, expliquei que ele era um escritor muito famoso e que ensinava muitas coisas interessantes em suas histórias para crianças. Ela até conhecia algumas. E, muito curiosa, logo perguntou:

- Será que ele é meu parente?

- Por quê? És Lobato?

- Não, sou Monteiro.

- Como assim? Não és Sgarabotto?

- Sou, por parte do meu pai; mas sou Monteiro por parte da minha avó.

Até hoje não descobri se a família da avó da Belinha é um ramo da árvore genealógica do escritor e editor de livros paulista José Bento Renato Monteiro Lobato (Taubaté,1882/São Paulo,1948). Mas nunca esquecerei dessas nossas conversas.

Certa vez Belinha sumiu por uns dias, o que era raro. O mais comum era nos vermos sempre, nem que fosse rapidamente. Bati na casa dos vizinhos para saber o que houvera. Belinha estava de cama, com uma febre que os médicos chamam de febre de origem obscura, porque não encontram causa aparente. Já não ia à aula há 3 dias. Com a licença dos pais, resolvi aplicar com ela a minha terapia da bola azul. Não me lembrava como lhe passara as informações, pois nunca entrei no seu quarto. Ela é que me lembrou que nos falamos por telefone, eu dizendo que ela se imaginasse envolta num grande celofane azul real como se fosse um ovo de páscoa. E imaginasse que seu sangue tinha a cor azul daquele tom e que ia circular por todas as veias do seu corpo, levando a cura aonde estivesse a causa da doença. E que ela acreditasse que ia funcionar porque ela queria ficar boa e voltar a frequentar as aulas. Como reforço do tratamento, eu também mentalizei-a curando-se.

Resumo da ópera: Belinha dormiu bem a noite toda, sem febre, e acordou lépida e fagueira, pronta para voltar às aulas. Se é sugestão ou se a energia da bola azul funciona mesmo ninguém pode provar. Mas o fato é que já tirei muita criança de crises estranhas com a minha terapia da bola azul, que chamo de energia cósmica.

Na primeira versão desta crônica, que submeti à análise de Belinha, eu dizia que perdi contato com ela quando me mudei para a casa da Bruno Lima, às vésperas do Natal de 1995. Mas ela disse que frequentou muito a minha casa, descreveu a cama com estrutura metálica, que dormia no quarto da Flávia, que já não morava mais comigo; lembrou detalhes do terraço; que me ajudava a dar banho nas cachorras no tanque. Detalhes que me escaparam completamente, como se nunca tivessem acontecido. Ela acha que paramos de nos ver quando eles se mudaram da Trindade para o centro. Faz sentido.

Minha mudança para a casa foi difícil: dia 23 de dezembro de 1995, no primeiro dia de tempestades subsequentes que se configurariam numa das maiores enchentes da Capital, com muita destruição de ruas, pontes e bueiros. Um tapete que guardei na garagem ficou encharcado, porque folhas entupiram o cano de esgoto pluvial e a garagem, em ponto inferior à rua, ficou com uns trinta centímetros de água acumulada. Acho que a água da tormenta foi tanta que levou as lembranças da Belinha naquela casa. Perdi Belinha de vista.

Uns oito anos mais tarde, a caminho do Centro Médico Florianópolis, na Presidente Coutinho, encontrei com a Júnia e perguntei pela Belinha. Ela me disse:

 

- Vai lá, tia, ela está em casa. Vai fazer uma surpresa pra ela. Nós moramos nesta rua.

Ela me deu o endereço e eu fui. Era um prédio com detalhes em azulejos alaranjados. A Belinha já era uma moça, e, como é natural, depois de tanto tempo e já na fase difícil da adolescência, quando eles têm vergonha de tudo, não me recebeu, como eu gostaria, com o mesmo entusiasmo dos tempos de criança, das aulas de fração e dos nossos passeios. Compreendi, mas confesso que fiquei decepcionada. Depois disso nunca mais nos vimos por um período de uns dez anos. Até que um dia recebi um recadinho no Face Book:

- Oi, tudo bem? Lembra de mim?

Não reconheci na foto e fui olhar no perfil: Izabela Sgarabotto e mais um nome estrangeiro. Perguntei se era a Belinha do São Conrado, que ia à praia comigo e que aprendeu frações na minha cozinha, eu fracionando a maçã pra ensinar-lhe um assunto que parecera tão difícil de entender na sala de aula.

- Sim, sou eu mesma, tia. Como vai a senhora?

Botamos o assunto em dia. Ela está na Califórnia, casada com um americano e morando em Santa Clara, no Vale do Silício. Cheguei a prometer visitá-la, já que minha filha morava em San Francisco e eu pretendia passar no mínimo dois meses com ela, a partir de final de abril. Como a Flávia nasceu em três de maio, a intenção era ir antes para passar o aniversário lá e me demorar uns dois meses para treinar o inglês com o marido dela, que não sabe nada de português. E já ensinar português a ele. Mas veio a pandemia e nossos planos naufragaram na tempestade do isolamento e do bloqueio dos aeroportos. Prometi escrever a nossa história para colocar no livro Laços de ternura, no qual vou reunir crônicas sobre crianças e animais de estimação que passaram pela minha vida. Ela ficou muito contente. Esta é a nossa história, juntando as minhas lembranças com os recortes da memória da Belinha. Vamos torcer para que possamos um dia sentar para comer camarão ou batata frita numa das praias que frequentávamos um quarto de século atrás. Agora eu já velhinha, e a Belinha a caminho da idade que eu tinha na época em que percorremos juntas aqueles trechos da estrada de nossa vida. Como é fascinante viver!  

Lia Leal

Crônica a ser publicada no livro Laços de ternura

 

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