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Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

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O Circo

Publicado em 29/11/2020 Comente!

  O circo

     

Chego para trabalhar e noto que a paisagem mudou em frente à minha janela: caminhões coloridos, fechados, estilo baú, meio sujos da viagem; uma pilha de troncos de diversas bitolas e tamanhos. Uma pilha de grades amarelas; cavaletes; um amontoado de lona parda e encardida. Cedo a Praça da Bandeira tem um movimento diferente, uma agitação de dia de feira. Mas não é: foi o circo que chegou.

Para confirmar minha teoria acerca da curiosidade brasileira, logo estão três ou quatro a trabalhar e o número dos que olham vai crescendo, crescendo até quase chegar a uma pequena multidão. E, enquanto os obreiros cavam, socam, enfiam estacas com marretas pesadas, os circunstantes, inconvenientes, desocupados dão palpite, indagam, xeretam. 

À tarde a obra já se mostra mais configurada: um grande círculo rodeado de estacas, o terreno todo certinho, forrado de serragem com outro círculo bem menor, concêntrico; uns esqueletos de mastros postados simetricamente, quatro bem mais elevados que os outros.

No dia seguinte, a aparição: uma barraca imensa, listrada de azul e branco, babadinhos vermelhos com estrelas coloridas, uma carreira de luzinhas multicoloridas dispostas como se fossem do convés de um navio em plena terra, com bandeirinha no topo do mastro e tudo.

Os caminhões estão enfileirados um ao lado do outro formando uma muralha impenetrável. Só que não são carros comuns, são carros-casas, reboques de todo tipo, tamanho e utilidade: com grade para o leão e outras ferras; com telas para macacos e aves; mais resistente para o pacato elefante, que passa o dia pegando areia com a tromba e jogando-a no dorso, talvez para se proteger do sol; peruas com bagageiro no topo, cheio de barris, caixas, geradores de energia, motores, antenas de televisão.

De sob um caminhão sai um cachorro vira-lata vestindo camisa vermelha desbotada que lhe acentua o ar plebeu; um casal de patos conversa animadamente à beira das muitas pocinhas da praça, com a naturalidade de quem está no terreiro natal. Nunca vi patos em espetáculo de circo. Qual será o papel deles nesse circo? Virar ensopado? Um novo elemento se incorpora ao que até agora se resumia ao visual: a música, entrecortada por anúncios do primeiro espetáculo. Mais para o fim da tarde o elefante é levado a outro lado do pátio, para um banho de mangueira e escovão, desses usados para lavar o chão, ritual inédito para mim. Aliás, a única coisa inédita, porque em matéria de circo, vendo as mesmas coisas sempre, depois dos 35 anos só se poderá ver coisa diferente, interessante na vida do circo, fora do espetáculo.

Mas para as crianças, quanta magia não se esconderá por sob aquele pano imenso, por detrás daquela portinhola de ferro, nos camarotes, nas cadeiras ou nas arquibancadas cheias de farpas e poeira, e lama, e areia, e gente e frestas  entre as tábuas (senta que o leão e manso!), e pipoca e coca-cola, e algodão doce, e fotógrafo, e criança chorando com medo dos bichos e do palhaço, ou com sono, ou com vontade de fazer xixi, ou com sede.

Um dia a operação começa toda de novo, mas no sentido inverso, porque os últimos acessórios colocados serão os primeiros a sair: saem os carreiros de lâmpadas coloridas e os holofotes, as amarras laterais, as lonas e, como num passe de mágica, muito mais ligeiro do que se armou, o circo está inteiro dentro daquela estranha frota, deixando apenas as marcas de estaca no chão lisinho e alcatifado de serragem. Sem falar nos sonhos e na fantasia que suas luzes internas e seus espetáculos deixaram na memória e no imaginário das crianças, ávidas de conhecer o mundo. Fantasias e sonhos que se agigantam na mente das crianças pobres que não conseguiram passar por baixo da lona lateral, numa tentativa fracassada de burlar a vigilância, fardada ou não, dos homens do circo e ficaram no lado de fora ouvindo palmas, músicas, risos...

Vida de circo, em eterno provisório-definitivo, deve ser uma desordem semelhante à aparência dos seus pertences quando estão chegando ou saindo. Eu, que nunca tive coragem nem oportunidade sequer de acampar, imagino nessa vida o maior suplício. Quem diria que uns trinta anos atrás, como toda criança, eu vibrava com circo e sonhava ser trapezista...

 

Lia Leal

Escritora

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Publicado originalmente n’A Cidade, nº 7, Fpolis, 11/1981.

Perua: caminhonete grande como as que hoje são chamadas de van.

Para quem não conhece a piada, esse apelo desesperado foi de um senhor que ficou com uma pelanca do saco presa entre duas tábuas da arquibancada, quando todos se levantaram porque um leão se soltou e foi para a plateia.

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