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Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

Nos Garimpos da Linguagem Por Lia Leal

Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

Aula de Redação.

Publicado em 22/11/2020 Comente!

Aula de redação

Certa vez, passando um final de semana em Cabeçudas, minha sobrinha e afilhada Cláudia Leal de Souza me chegou muito aflita, pedindo que eu a ajudasse a fazer uma tarefa de escola. Ela devia ter uns 12 anos, cursava o 1º ou 2º ano ginasial (5º ou 6º do atual ensino fundamental) e não tinha a mínima ideia de como começar a tarefa que a professora lhe passara: escrever uma fábula. Como boa professora que segue a maiêutica[1] – levo o aluno a resolver seus problemas e não dou a solução pronta – convidei-a para sentarmos na varanda de sua casa e comecei o processo.

- Tudo bem, Claudinha. Vamos começar pelo começo. Tu sabes o que é fábula?

- Sei, tia. A professora explicou que é uma história de mentirinha, em que os bichos falam. Como essas dos livrinhos infantis.

- Certo. Mas não só os bichos falam. Na fábula, qualquer ser, mesmo inanimado, pode ganhar vida e falar até coisas muito interessantes, dar ensinamentos úteis e edificantes para a vida das pessoas, dependendo da criatividade e da intenção do autor, da mensagem que ele quer passar aos leitores. Como é que pretendes fazer a tua fábula?

- Pois é isso que está me deixando maluca, tia. Eu não tenho a mínima ideia! Os dias passam, eu tenho só este fim de semana para fazer a tarefa e não consigo achar nada interessante para escrever.

Então eu perguntei quais fábulas ela conhecia, e eram muitas: Os três porquinhos, Bela Adormecida, Branca de Neve e os sete anões... Falei de Monteiro Lobato, lembrando-a que o seu personagem Visconde de Sabugosa era um sabugo de milho, por isso o nome do seu título: Visconde de Sabugo-sa.

De repente, numa feliz coincidência – costumo dizer que é inspiração divina – olhei para o jardim à nossa frente e vi um pé de milho de uns 70 cm crescendo no meio das flores. Que não eram muitas, apesar do zelo da minha irmã Lea, porque o espaço era pequeno e sob um enorme pé de flamboyant, que fazia muita sombra, prejudicando o desenvolvimento das plantas que exigissem sol. Então perguntei à Cláudia:

- Sabes o que é aquela planta ali? e apontei o pé de milho.

- Não sei, tia. Parece cana, como vi no sítio do vô Olíndio.

- Não é cana. É um pé de milho. O que é que tu achas de uma planta que produz alimento estar no meio das flores?

- Não sei, tia. Acho que ela deveria estar numa horta, onde se plantam verduras para comer. Ou num pasto grande, com outros pés de milho, fazendo uma grande roça como tem no sítio do vô...

- Ótimo! Acho que encontrei o tema da fábula para escrevermos. Conheces a história do Patinho Feio?

- Claro, tia. Ele era complexado e muito triste porque era feio, mas no fim ele descobriu que não era feio, ele só era diferente dos patos. Ele era um lindo ganso, por isso tinha aquele pescoço comprido que os patos tanto criticavam nele.

- Então, o que achas de adaptarmos a história do patinho para este pé de milho?

- Como assim, tia? Não entendi!

- Escuta. Vou explicar: o patinho feio não estava deslocado, longe dos outros gansos?

- Estava.

- E este pé de milho no meio das flores também não está deslocado?

- Sim.

O que tu achas de inventarmos uma história de que as flores vão começar a criticar o pé de milho porque ele é feio e não dá flores? Vamos inventar juntas uma história bem bonita. Com uma lição no fim e tudo.

- Tia, como tu és incrível! Acho que vai ficar uma história linda! Estou até emocionada! É só a tia me ajudar a botar as ideias no papel bem certinhas, porque eu não sei escrever como tu sabes...

O que saiu da nossa aula foi esta história, que pretendo publicar num livrinho infantil bem colorido e surpreender a Cláudia, hoje com mais de 50 anos e mãe de um casal de filhos adultos. Uma história que ela poderá contar para seus netos, dizendo que a personagem central é ela própria, pré-adolescente, numa aula de redação criativa com a sua tia e madrinha, escritora Lia Leal.

Nossa aula de redação resultou no texto que vem a seguir.

 O pé de milho

Há muito tempo, num reino encantado, havia uma casa muito grande com lindos jardins, cheios de flores, de muitas cores e muito perfumadas. Atrás da casa, num enorme terreno, seus donos cultivavam uma horta cheia de verduras, hortaliças e muitas ervas para chá e temperos.

Certo dia, as flores notaram que estava crescendo uma criatura estranha num dos maiores canteiros onde vicejavam as mais belas flores do jardim. Era uma planta comprida, com folhas longas, que dia a dia crescia mais, sem aparecer as flores que todas as vizinhas esperavam ver para saudá-las, dando-lhes as boas-vindas.

Eis que um dia, numa bela manhã de sol, em vez de flor, naquela planta apareceu uma forma alongada, com um tufo de cabelos louros na ponta. As flores vizinhas começaram a cochichar, comentando o que seria aquilo. O pé de milho ficou muito triste quando percebeu que estavam falando dele, com comentários nada amigáveis. Mais triste ficou quando ouviu um gerânio dizer para a rosa vizinha:

- Essa criatura não deveria estar aqui no nosso meio. Não tem atrativo algum e está destoando da beleza do nosso canteiro. Em vez de flor tem um canudo com um tufo de cabelos!

O pé de milho já começava a murchar de tão triste, sentindo-se rejeitado por suas belas vizinhas. Até que um grande girassol, na sua beleza esfuziante cor de ouro, resolveu ajudar o pé de milho e foi conversar com ele.

- Por que tanta tristeza, meu vizinho?

- Ninguém gosta de mim porque sou feio e não tenho flores.

- Não se aborreça com isso. Você é um lindo pé de milho, e seu papel não é embelezar a casa das pessoas, mas dar-lhes um alimento rico em nutrientes: os grãos de milho que você esconde aí dentro dessa espiga. Todos nós nascemos com um propósito na vida. O seu é produzir alimento. Não devemos julgar ninguém pela aparência, mas pelo seu valor e pelo que faz de bem. O único problema é que aqui não é o seu lugar. Você deveria estar lá na horta, junto com suas colegas que alimentam as pessoas e os animais.  Certamente você nasceu aqui porque a dona da casa deixou cair uma semente de milho no canteiro das flores. E, desejando servir, você brotou e se tornou este lindo pé de milho! Um dia, quando sua espiga estiver madura, os donos da casa vão colhê-la e lhe agradecer por dar-lhes este precioso alimento. E todos os animais vão lhes ser gratos por matar a fome com suas folhas e frutos.

O girassol ainda explicou ao pé de milho que ele próprio era uma flor diferente: serve para enfeitar com sua enorme flor amarela, e quando a flor envelhece e murcha, suas sementes, que estão no miolo, no meio das pétalas amarelas, também são um valioso alimento para pessoas e animais. O girassol ainda lembrou ao pé de milho um detalhe muito importante: ninguém é melhor nem pior do que ninguém. Os seres – humanos ou não – apenas são diferentes. Nós devemos aceitar as pessoas como elas são e não querer todo mundo seja igual a nós. 

Compreendendo que não havia nada de errado com ele, apenas estava num ambiente onde eram cultivadas plantas diferentes, o pé de milho ficou mais animado, encheu-se de vida, agradeceu ao girassol pelas belas palavras e ficaram amigos para sempre.

Envergonhadas de seus comentários preconceituosos e pouco amigáveis, as outras flores pediram desculpas ao pé de milho, dizendo que ele ficasse muito à vontade no meio daquele canteiro. Que ele era bem-vindo, sim. Elas é que estavam erradas.

E assim, entendidos e harmonizados, todos viveram felizes para sempre no jardim do casarão do reino encantado.

 


[1] Na filosofia socrática, a arte de levar o interlocutor, através de uma série de perguntas, a descobrir conhecimentos que ele detinha sem saber.

 

Lia Leal

Escritora

 

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