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Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

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Ponte Hercílio Luz: história de um símbolo.

Publicado em 15/11/2020 Comente!

Ponte Hercílio Luz: história de um símbolo

  (Publicado na revista Olá, Florianópolis, em 11/92)                                                              

 A história da Ponte Hercílio Luz está intimamente ligada aos governos de Hercílio Pedro da Luz. Engenheiro civil, esse estadista preocupou-se com o desenvolvimento de Santa Catarina, promovendo muitos projetos em todo o Estado, dos quais a ponte é apenas uma pequena parte, entre outras, envolvendo a saúde pública, o sistema rodoferroviário e a modernização da vida catarinense.

Para entender sua história, devemos situar-nos no contexto do tempo e do espaço catarinense e conhecer os aspectos geográficos da área em que foi construída. Convém lembrar que a evolução dos povoados e das vilas da área, o abastecimento da Capital e a comunicação entre a ilha e seu continente fronteiriço exigiam a construção de uma ponte.

Financiamento da ponte

Há muito tempo Florianópolis era ameaçada de perder a condição de Capital, pois forte corrente política vinha defendendo sua transferência para outras cidades do interior do Estado. Na segunda metade do século XVIII, o Coronel Manuel Escudeiro pretendeu mudar para o continente a sede administrativa da Capitania da Ilha de Santa Catarina. Na segunda década do século XX, a pedido do Governador Hercílio Luz, foi elaborado um projeto da nova Capital, com sede no Planalto de Lages, às margens do Rio Canoas, alegando que Florianópolis não tinha condições de se desenvolver porque não produzia nada e enfrentava dificuldades com a travessia do mar por meio de lanchas.

Cônscio do problema, Hercílio Luz resolve construir uma ponte para ligar a Ilha ao Continente, consolidando Florianópolis definitivamente como Capital. Entre as muitas dificuldades para concretizar sua ideia, a financeira se afigurava como a mais importante. Na época da contratação do financiamento, em 1923, o orçamento de Santa Catarina era de 7 milhões, 274 mil e 326 contos de réis, praticamente a metade da dívida assumida. No entanto, pelos cálculos feitos, o custo da obra, somados os empréstimos externos e internos, acabou por chegar a 14 milhões, 478 mil, 107 contos e 479 réis.

Construção

 Obtido o financiamento e traçados os planos finais da obra, a construção da ponte se desenvolveu normalmente, ao longo de 4 anos, embora prevista para 24 meses. Os engenheiros, irmãos Corsini, chegaram a Florianópolis no dia 14 de novembro de 1922, como empregados da firma contratada, responsáveis pela supervisão dos trabalhos. No dia 22 do mesmo mês foram iniciadas as sondagens do subsolo onde seriam construídos os apoios do vão central (dentro da água) e os pilares de ancoragem, em terra firme, tanto na parte insular como na continental.

Porém, essas sondagens acusavam grande diferenças das oferecidas pelo Estado na ocasião da concorrência pública, o que exigiu novas e definitivas sondagens. O resultado final mostrou que a rocha viva, em vez de se encontrar a 9 ou 10 metros abaixo do nível médio da maré, achava-se entre 12 e 19, no lado do continente. No lado da ilha, ocorreu fato semelhante: a rocha sólida foi encontrada em profundidade entre 15 e 17 metros.

No final do mês de novembro, chegaram dos Estados Unidos e de SP materiais e máquinas para dar início à construção da ponte. Um mês depois, já dois guindastes estavam montados no lado continental e havia sido iniciada a construção do trapiche que receberia o material pesado, importado da Dinamarca, entre eles 4000 barricas de cimento que aqui aportariam em fevereiro do ano seguinte. Em fins de fevereiro o canteiro de obras estava instalado, com todas as suas construções concluídas, inclusive uma pedreira completa para extrair as pedras necessárias.

No mês de março de 1923 chegou o primeiro carregamento de grandes bombas-pulsômetros, estacas-pranchas e todo o material necessário para iniciar as fundações, estando distribuídos os recursos humanos e materiais nos seus devidos lugares, tanto na ilha como no continente, para serem iniciados simultaneamente os trabalhos de fundação em ambos os lados.

Problemas

Ao ser colocada a primeira prancha de aço no pilar do vão central, no mês de abril, o inesperado: as pranchas atingiram a profundidade de 10m (cota fornecida pelo Estado) e desapareceram sob a água, pois as rochas que pareciam sólidas eram apenas boulders sobre uma camada de conchas semipetrificadas antes de chegar à rocha viva. O pilar de ancoragem continental estava sobre 400 estacas, enquanto na ilha estava incrustado na massa granítica, conforme sondagens iniciais.

Não contando com recursos para sanar a dificuldade da diferença de profundidade, após minucioso estudo a empresa contratada mandou vir dos Estados Unidos os equipamentos adequados, que aqui chegaram em fins de junho do mesmo ano, inferindo-se que o imprevisto não provocou grande atraso na obra. Todos os trabalhos de fundação foram concluídos em 20 de julho do mesmo ano, inclusive pilares de ancoragem, pedestais e encontros. As fundações da ponte exigiram 14.350 metros cúbicos de concreto, nos quais foram empregadas 29.000 barricas de cimento de 180 kg cada uma, da Portland Aalborg. Para os pilares submersos foi utilizado um cimento especial para resistir à ação corrosiva da água salgada.

Em meados de junho de 1924 chegou o primeiro carregamento de ferro, e o último em outubro do mesmo ano.

Hercílio não conclui obra

Mas quando o projeto avançava de vento em popa, o seu idealizador teria de deixar a terra natal em busca de maiores recursos para tratar sua saúde fortemente abalada. Acatando conselho de seu médico, Hercílio Luz tomou as providências para afastar-se do Estado com destino à Europa. Concedida a licença pelo Conselho Municipal, Hercílio Luz embarca em 5 de maio de 1924, acompanhado da esposa e de seus quatro filhos menores, mais seu secretário particular, Olavo Freire Júnior. O Estado Catarinense ficou sob o comando do vice-governador, o Coronel Pereira e Oliveira.

Em Paris, Hercílio Luz consulta o Dr. Jean Giscard, mestre da Faculdade de Medicina, que lhe diagnostica um câncer de estômago e lhe receita tratamento nas águas termais da Casa de Saúde Evian-les-Bains. Embora experimentando pequena melhora, Hercílio Luz é desenganado pelos médicos e decide voltar à terra natal, com chegada prevista para outubro de 1924.

Inauguração simbólica

Toda a população acompanhava emocionada a construção de uma passarela junto ao Trapiche de Florianópolis, no formato de uma ponte pênsil medindo 18 metros – 50 vezes menor do que o original da que estava sendo construída – e cuja conclusão, já se sabia, não seria presenciada pelo seu idealizador, condenado pela enfermidade que o consumia. Essa miniatura da Ponte destinava-se a oferecer a Hercílio Luz a oportunidade de sentir o prazer simbólico de passar por sua ponte, ainda em vida.

Hercílio Luz chegou a Florianópolis na tarde de 8 de outubro de 1924 no Paquete Itapema, com esposa e filhos. Cruzando o canal entre a Ilha e o Continente, passou por entre as colunas em construção de sua ponte, admirando a majestosa obra com indisfarçado orgulho.

Hercílio Luz se comoveu com o calor da recepção e se dirigiu à ponte em miniatura. Os últimos raios do sol douravam a imagem da pequena ponte, tornando-a mais bonita. Atravessou os 18 m sempre apoiado em sua bengala. A multidão o aclamava sem cessar, enquanto a banda de música tocava com ar solene. O espetáculo permaneceu na memória de todos que o presenciaram. Doze dias depois, em 20 de outubro, Hercílio Luz faleceu, sem ver concluída a obra de seus sonhos, a ponte que ele imaginava denominar Ponte da Independência. Mas, por justiça, levou seu nome por unanimidade de votos. 

Inauguração da ponte

Chovia muito naquela tarde de quinta-feira, 13 de maio de 1926, quando todos os catarinenses, especialmente os da região de Florianópolis, voltavam a atenção para um grande e marcante acontecimento: a inauguração da Ponte Hercílio Luz, que passaria a se constituir, dali em diante, no símbolo da Capital de Santa Catarina e num marco histórico de seu desenvolvimento socioeconômico e cultural.

 

Lia Leal

Escritora

 

               

 

            

 

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