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Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

Nos Garimpos da Linguagem Por Lia Leal

Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

Nos garimpos da linguagem

Publicado em 08/11/2020 Comente!

Nos garimpos da linguagem

 

Algumas dificuldades da Língua Portuguesa 2

 

Oi, leitores!

Já publiquei aqui a primeira parte desta matéria, com 10 itens, tratando de assuntos importantes, como o uso de porque, por que, por quê e porquê e o uso de para eu fazer e não para mim fazer, entre mim e ti e não entre eu e tu. Agora vou concluir esta seção, com mais 18 itens como abordei no meu livro Aspectos práticos de redação e revisão, a sair em dezembro, se Deus ajudar e a pandemia não atrapalhar. Leia com atenção e procure corrigir-se usando a forma correta, se você usava a errada. Sempre é tempo de aprender, não é mesmo? É fazendo que se aprende a fazer. Vamos praticar?

 

11.      Emprego dos pronomes oblíquos o, a, os, as

            a) Sem alteração, quando o verbo termina em vogal: Chamei-os, viu-a, leu-a.

            b) Associados a formas verbais terminadas em r, z, s – os pronomes o, a, os, as          assumem as formas lo, la, los, las, caindo aquelas consoantes: Chamá-lo, fê-la, inquiri-los, distribuí-las, incluí-lo, destituí-la.

            c) Tomam as formas no, na, nos, nas quando associados a verbos terminados em m, ão, õe, que têm som nasal: Chamam-no (chamam+o), dão-na (dão+a), lavam-nos (lavam+os) trazem-nas (tazem+as) põe-na (põe+ a), põem-na (põem+a).

 

12.      Diferença entre sobrescrito e subscrito

 

Sobrescrito é sinônimo de envelope, título, escrito em cima:

Ex.:  A carta está com o sobrescrito em péssima letra.

Nota 4 – seria incoerência dizer péssima caligrafia porque cáli em grego significa bonito (a), logo caligrafia é letra bonita... Mas já é aceita caligrafia como sinônimo de letra, liberando a expressão péssima caligrafia. O Michaelis, por exemplo, dá como sinônimo de caligrafia letra manuscrita.

Subscrito é aquilo que está escrito ao pé, assinatura no fecho:

Ex.:     Vou subscritar a carta (isto é, assinar).

 

13.      Diferença entre anti e ante

Anti indica oposição: antididático (contra a didática) antieconômico (contra a economia). Já publiquei aqui o quadro do uso do hífen segundo as normas do acordo ortográfico vigente.

Ante indica anterioridade: antediluviano, anteontem, anteprojeto.

 

14.      Menos é advérbio, e como tal, invariável: Mais amor, menos confiança. É errado dizer: na procissão deste ano houve menas gente!

 

15.      Quite Quites

A palavra quite concorda com o nome a que se refere:

Ex.:     Eu estou quite com a cantina da escola: já paguei tudo; nós estamos quites: nem eu te devo, nem tu, a mim.

 

16.      De forma que, de maneira que, de modo que – locuções invariáveis. É, pois, errado dizer de modos que, de maneiras que, de formas que.

 

  1. Estadia, estada

Estadia é o tempo de permanência concedido a navio no porto, para carga e descarga.

Estada é a demora, tempo de permanência de uma pessoa em algum lugar. Ex.:Desejo-lhes feliz estada em nossa cidade.

Nota 5 – Os dicionários Aurélio e Houaiss já dão os dois vocábulos como sinônimos, embora especifiquem estadia (que vem de estalia, cognata de estaleiro) para permanência de navio no porto. No entanto, em prova de concurso, em exame vestibular e similares, isto pode ser considerado erro. Convém ter consciência do significado original de ambos para poder optar e, acima de tudo, argumentar, se for o caso.

 

18.      A palavra é masculina; portanto, devemos dizer: tenho muito dó de você. Você tem muita pena, muita piedade, mas muito .

 

19.      Haver e Fazer

Quando se refere a tempo decorrido, no sentido de existir, no sentido de ocorrer, o verbo haver é impessoal, só empregado na 3&61610; pessoa do singular. Ex.: Havia três meses que não o visitava. Havia duas pessoas na sala. Houve muitos acidentes. Faria o trabalho desde que houvesse condições.

Também o verbo fazer no sentido de tempo decorrido é impessoal, só empregado na 3&61610; pessoa do singular. Ex.: Faz dois dias que ele morreu. Fará amanhã três meses que cheguei.

 

20.      Diferença entre à-toa e à toa

 

Não há mais diferença. Depois do acordo ortográfico, adjetivo e locução adverbial são escritos sem hífen. Ex.: Ele é um sujeito muito à toa. (Adjetivo; significa ordinário. Antes era à-toa.) Ex.: O rapaz vive à toa. (locução adverbial; significa sem rumo, sem ocupação. Antes já era sem hífen). Mas observe que nas duas categorias gramaticais ocorre a crase.

 

21.      Plural dos diminutivos

As palavras em que o plural exige mudanças além do S final (normalmente as terminadas em R, L, ÃO) fazem o diminutivo plural da seguinte forma: pluraliza-se a primeira parte da palavra, da qual se suprime o S final, e acrescenta-se o sufixo (zinho) pluralizado. Ex.: anel, anéis, aneizinhos; bar, bares, barezinhos (já está popularizada a forma barzinhos e tudo indica que será oficializada); lençol, lençóis, lençoizinhos.

Nota 6 – O diminutivo plural perde o acento que tinha no grau normal.

 

22.      Diferença entre a fim de e afim

A fim de (locução prepositiva) equivale a com a intenção de, com a finalidade de. Ex.: Veio a fim de ficar. (Veio para ficar); estão aqui a fim de podermos continuar o trabalho (para podermos continuar o trabalho).

Afim (adjetivo) significa da mesma natureza, com afinidade: Matemática e Física são ciências afins. Parentes não consanguíneos, como sogra, sogro, cunhada, cunhado e outros. Eu e Fred somos afins. (Fred é meu cunhado.)

 

Historinha da vida real sobre o verbete afim para ajudar você a nunca mais esquecer seu significado: no meu vestibular para Direito na Univali (em 1971 se chamava Fepevi), o tema da redação foi A finalidade da afinidade dos afins. Essa prova deu o que falar. Foi um alvoroço na cidade entre a legião de vestibulandos, muitos vindos de cidades e até de estados vizinhos. Houve candidato que, pedindo cola, perguntou o que era afim. Alguém soprou parente, mas ele entendeu parede. Gostaria de saber que redação saiu da cabeça desse mal-informado candidato. Levei um susto com a surpresa do assunto, mas cônscia de que sempre fora excelente aluna em língua portuguesa, não seria logo a redação que iria me derrubar num vestibular, mesmo após dez anos de concluir o magistério, sem estudo formal nesse tempo. E consegui fazer um bom trabalho, começando assim: Já dizia Aristóteles que o homem é um animal político; político no sentido de social, que vive na polis, a cidade, um animal que vive em sociedade. E daí emendei com o caso de jovens que começam a namorar na faculdade e acabam casando. Quando a sogra vai passar um tempo com eles, a afinidade dos afins será testada. Porque a sogra é consanguínea da filha, mas é parente por afinidade do genro, não consanguíneo.  E concluo dizendo que a finalidade da afinidade dos afins é a paz e a harmonia na família, a célula da sociedade. Satisfeita e até orgulhosa da minha produção, pois consegui passar a limpo e tive tempo de revisar, pensei em me salvaguardar de qualquer prejuízo, porque o fiscal da minha sala era um político adversário ferrenho (PMDB) do meu cunhado (ARENA). Passei o rascunho a limpo noutra folha e fui ao jornal A Nação explicar meus temores ao Nilton Russi, diretor d jornal, e pedir que publicasse minha prova como crônica de colaborador avulso. E ele publicou, porque não achou que fosse favor: a colaboração era digna do seu jornal. Um dia ainda vou resgatar essa crônica para colocar em algum dos meus futuros livros, pois é minha primeira crônica publicada em jornal. Vou completar 50 anos de jornalismo em janeiro de 2021! Meu marco zero é essa redação de vestibular. Sempre em jornais nanicos e sem remuneração. Nunca auferi um centavo com o que escrevi nestes 50 anos. Mas o prazer de ver minhas ideias publicadas não tem preço. O resultado? Passei muito bem, ficando entre os dez primeiros.

 

23.      Entretanto e no entanto

É errado usar no entretanto. Opte por um ou por outro: no entanto ou entretanto.

Uma confidência: meu professor de direito comercial, na FEPEVI, atual UNIVALI, usava no entretanto. Nunca tive coragem de corrigi-lo. Vai que o homem implica comigo e começa a me perseguir. Detalhe: eu já não gostava da matéria...

 

24.      Emprego de este, esta, isto, esse, essa, isso, aquele, aquela, aquilo

1) Este, esta, isto indicam:

            a) o que está perto da pessoa que fala: esta borracha aqui.

b) o tempo presente em relação à pessoa que fala: eu não tinha este rosto de hoje; a alegria deste dia de julho.

2) Esse, essa, isso significam:

            a) o que está perto da pessoa com quem se fala:

            Ex.:  Dê-me esse livro aí.

b) o tempo passado ou futuro em relação à pessoa que fala, ou algo que se relacione com um fato mencionado:

Ex.:            "(...) e, nesse dia, então, vai dar na primeira edição: crime de sangue num bar, da Avenida São João" (Paulo Vanzolini, Ronda).

3) Aquele, aquela, aquilo denotam:

            a) o que está afastado da pessoa que fala e da pessoa com quem se fala.   

            Ex.:     Presta atenção, minha filha, não quero mais ver-te naquele lugar.

b) um afastamento no tempo de modo vago ou numa época remota: Por que viajaste naquela ocasião? Não tenho mais o rosto daquele tempo.

4) Dentro de um mesmo período do discurso, para não repetir as palavras, pode-se usar este e aquele, sendo este para a palavra mais próxima e aquele para a mais distante na frase. Ex.:   O padre e o médico têm funções semelhantes: este cura o corpo, aquele cura a alma. Maria é tão diferente de Elisa que nem parecem irmãs: esta adora carnaval, aquela não o suporta.

5) Esse, essa, esses, essas podem também ser sinônimo de tal, semelhante:

Ex.: Essas coisas só acontecem com ele (tais coisas). É nessas horas que se conhecem os verdadeiros amigos (em tais momentos).

 

25.      Trás e traz

Não é raro encontrar erro no emprego dessas duas palavras, quando sabemos que pertencem a classes gramaticais diferentes e são de origem diversa.

Trás - preposição e advérbio (dependendo do contexto) vem da preposição latina trans, em que o grupo ns, como ocorre com frequência, se reduz a s: mensa - mesa; trans - trás. O acento é necessário por ser monossílabo tônico apoiado na vogal a. Derivam de trás: atrás, detrás, por trás, bem como atraso, atrasado, retrasado, traseiro.

Traz - é a 3ª pessoa do indicativo presente do verbo trazer, que vem do latim tracere, forma hipotética trahere. O C intermediário geralmente se transforma em Z: vicinu - vizinho; bucina - buzina. Daí: trace - traze traz.

 

26.      Través, através e através de

A base originária destas três palavras é a mesma: o advérbio latino transverse (obliquamente). A primeira veio diretamente da forma originária e admitiu sentidos como: esguelha, soslaio, lado, flanco, travessa de madeira atravessada. Precedida da preposição de, forma a locução adverbial de través, com o exato sentido primitivo: transversalmente, de lado.

A segunda formou-se pela junção da preposição ad à forma latina: ad+transverse, cujo significado fica próximo do da primeira forma: transversalmente, de lado a lado.

A terceira forma corresponde à segunda mais a preposição de, certamente depois de perdida a lembrança de que o a inicial tem origem na preposição ad, de igual sentido que o de português. É locução prepositiva e significa por meio de, por entre, no decurso de.

A confusão mais comum é entre as duas últimas formas: através, em seu significado correto, é raramente empregada. Por isso, e talvez por influxo francês, em que a expressão à travers, sem o de, corresponde à terceira forma portuguesa, é frequente ver-se, incorretamente, a segunda forma pela terceira, isto é, sem o de.

            Exemplos de uso das três formas: Olhou-o de través, como se houvesse dito uma inconveniência. A espinha de peixe ficou-lhe na garganta através (atravessada na garganta). Através dos anos (ao longo dos anos), ele foi consolidando uma carreira de artista reconhecido internacionalmente.

Lembrete final: duas coisas devem ficar bem claras: escreve-se com S, e como locução prepositiva é obrigatório o de. Não é correto usar através de com verbo na voz passiva: o gol do Vasco foi marcado através do Romário; corrija-se para: o gol do Vasco foi marcado pelo Romário; (na voz ativa é: o Romário marcou o gol do Vasco).

 

27.      Viagem e viajem

O substantivo é sempre escrito com g:

Ex.:     Espero que façam uma boa viagem.

Todas as formas verbais são escritas com j, mesmo aquelas em que esta consoante se apoia no e: Espero que eles viajem bem. Embora venha do provençal viatge, o verbo, por seu som, passou para o português com j, pois com g ficaria viagar.

No mesmo caso estão as palavras escritas com j em português, embora em outras formas, inclusive na origem latina, se escrevam com g:          - anjo, anjinho - vem de angelus, anjo (angélico e angelical conservam o g da origem); ajo, agem, agimos - do verbo agir; constranjo, constrangem, constrangido - do verbo constranger.

 

28.      Vocábulos indígenas terminados em AÇU

Durante muito tempo, os gramáticos e estudiosos divergiram quanto à grafia das palavras de origem indígena terminadas pelo adjetivo tupi que significa grande: assu ou açu? A ortografia oficial optou pela segunda forma. Assim, temos as seguintes palavras, entre outras: Paraguaçu, Itaguaçu, babaçu, Turiaçu, Biguaçu, Itajaçu, Iguaçu etc.

Lembre-se que se grafam também com Ç outros vocábulos de origem tupi, africana ou alienígena: açaí, araçá, araçoia, caçanje, Juçara, Moçoró, caçula, miçanga, paçoca, paiçandu etc.

 

29.      Ir ao encontro de e ir de encontro a

Ir ao encontro de significa encontrar-se com, sair no encalço de; por extensão de sentido, também significa concordância, estar de acordo, ter a mesma opinião e outros semelhantes. Ex.: O mestre de cerimônia foi ao encontro dos visitantes que chegavam. O orador frisou que tais argumentos vinham ao encontro da tese defendida.

Ir de encontro a corresponde a opor-se, chocar-se, defrontar-se com; por extensão de sentido também significa contradizer, contrariar, ter ideia oposta. Ex.:    O aparte daquele aluno veio de encontro à opinião geral da classe. Desgovernado, o carro foi de encontro ao poste.

 

30.      Sito, situado em

É generalizado o uso da preposição a para reger os verbos situar e morar, quando, na verdade, uma só regência deveria ser aceita: com a preposição em. Ex.:         A cerimônia se realizará na Igreja São Luís, situada na Rua das Flores. Estabelecimento sito na Rua Tal. O exército situou-se nas margens do Tietê. Aquele aluno mora na Praça Quinze. Você mora em casa própria? Moramos em Florianópolis já faz vinte anos.

Pelos exemplos acima, não resta dúvida acerca da regência desses verbos. Veja se é possível dizer de maneira diferente: Situados neste ponto vemos melhor o desfile.

Nota: os portugueses preferem usar a preposição a com o verbo morar. Ex.: Moramos à Rua Tal, número tal.

 

32.      Cessão, sessão, secção e seção

Ainda acontecem muitos erros na grafia e dúvidas sobre o sentido dessas palavras, embora seja patente que divergem entre si, pois carregam significado próprio.

Cessão vem do latim cessione (cessio, cessionis), substantivo ligado ao verbo cedere, que deu o verbo ceder. Portanto, cessão é o ato de ceder. Ex.:           A cessão do terreno foi feita legalmente.

Cognatas: concessão, precessão, intercessão.

Sessão vem do latim sessione (sessio, onis = ação de sentar). Ligada ao verbo latino sedere (sentar), tem o sentido de estar, sentado ou não, assistindo a um espetáculo, reunião, ou fazendo alguma coisa, como sessão de psicanálise, de pintura etc. Palavras cognatas: assento, sede, sé e sedentário, entre outras.

Exemplos: O retrato foi pintado em duas sessões (duas sentadas, duas vezes que o pintor se dedicou à obra). Já paguei duas sessões à psicóloga do meu filho. Gosto de ir ao cinema na sessão da tarde.

Secção, seção vem do latim sectione (sectio, sectionis), ação de dividir, cortar. Liga-se ao verbo latino secare (cortar, partir, seccionar, fragmentar). Portanto, secção é a parte de um todo, fragmento, divisão repartição. Ex.:    A secção de pacotes é à direitaA secção do terreno em duas partes é bem pensada. Dessa derivam algumas palavras cognatas: secante, seccionar, interseccionar, sectário, intersecção. A forma seção, preferível no Brasil, é a mesma palavra sem o c. A fala popular, pela lei do menor esforço, eliminou essa letra. A ortografia costuma abonar o que o uso impõe. Não era usada em Portugal, mas pelo acordo deverá sê-lo, embora haja muita resistência.

 

Lia Leal

Escritora

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