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Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

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Réquiem para uma Buganvília assassinada.

Publicado em 01/11/2020 Comente!

RÉQUIEM[1] PARA UMA BUGANVÍLIA ASSASSINADA

            Minha amizade por essa árvore data de pouco. Uns três meses ou menos. Conheci-a quando passei a frequentar a Rua Barão de Batovi127, na missão de suprir as limitações físicas que a doença impusera a um escritor para desenvolver suas atividades intelectuais.

          Todas as tardes eu chegava lá, entrava pelo portão do qual tinha cópia da chave, subia as escadas, tocava a campainha e me voltava para admirar aquele trecho de Florianópolis com o qual nunca tivera tanta intimidade. Era uma visão bonita.

            Logo à esquerda, na esquina da Barão de Batovi com a Rua São Jorge, destacava-se imponentemente aquela árvore imensa de buganvília, um quadro belíssimo, com fartos tufos de flores rosa escuro. Fico a imaginar se não será essa o que chamam de cor carmim ou carmesim. Acho que é.

            Durante o mês de fevereiro quase não a vi. Acompanhei a família na sua temporada de veraneio, na praia de Canasveiras, e a buganvília ficou sozinha, sem a minha admiração. Do conhecimento passamos logo à amizade, e desta nasceu em mim uma admiração quase devoção por aquela árvore, pelos instantes de beleza que ela me proporcionava todas as tardes, naquelas minhas chegadas e saídas daquela casa, onde também havia dois pés de buganvília crescendo sem viço, lentamente, o tronco lenhoso, nodoso, denunciando idade avançada, florinhas ralas e de cor sem vida, num tom mais escuro e mais azulado do que o da minha amiga da outra rua.

            E eu, por incrível que pareça, tão afeiçoada estava àquela árvore vizinha, que assumira sua defesa, nomeando-a prima inter pares e olhando com um misto de pena e desprezo para aquelas da casa que eu frequentava.

            Não sei que estranho laço foi esse que me autorizou a tomar a sua defesa, a fazer a sua apologia, mesmo sem sequer saber quem a plantou ne quem a cultiva atualmente.

            No final de fevereiro, de regresso da praia, notei que aquela floração luxuriante que me cativara estava desmaiada, os tufos carmim se tornaram bege, as flores haviam secado. E novos tufos ainda se insinuavam, um pouco tímidos, embora abundantes, de permeio com outros que já se despediam da sua alegre missão de embelezar um pedaço de cidade, um canto de rua...

            Hoje, ao chegar ao patamar da escadaria frontal daquela casa, que transformei no meu mirante para aquele ângulo da cidade, não pude conter a emoção de ver espessos e fartos tufos de flores em duas cores, mas tão prodigamente distribuídos por toda a copa da árvore que chamei o enfermeiro da família e fi-lo notar como a minha amiga estava mais bela do que nunca. Agora as flores bege, secas, desidratadas, se permeavam de outras tantas, no frescor da sua vermelhice, apesar do calor sufocante que vimos passando neste verão de 1988. Mas há uma explicação: apesar de quentíssimo, este fevereiro foi dos mais molhados dos últimos anos, para gáudio e saúde da minha amiga buganvília da esquina. Que não se contenta em embelezar a sua própria casa: pende, generosa, do elevado barranco em que se encontra, por sobre o muro e joga alegremente sua maravilha em direção à calçada, pendida, balouçante, verde, bege e carmim, linda! Esbanjando vida, saúde e beleza!

            Por volta das quatro da tarde, quando deixei a casa em companhia do seu dono para uma sessão de fisioterapia, a visão de um quadro de violência me assaltou o coração pela brutalidade do gesto e me cortou a respiração pelo choque da surpresa: dois homens, machado em punho, se esmeravam na lida insana de deitar por terra a minha linda buganvília, amputando-lhe grossos galhos carregados de flores. Daquelas florinhas tão insignificantes se analisadas individualmente nas suas magnas brácteas membranáceas onde são inseridas três a três, no dizer do dicionarista, o que vem fortalecer a teoria de que o todo é muito mais do que a soma das partes. Porque o conjunto dos cachos de buganvília nada têm de insignificantes.

            Estava atrapalhando a piscina, me disseram os vândalos portadores do mandado de destruição. Iam cortar tudo, até a raiz, explicaram. E eu podia levar tudo que quisesse. Era um favor.

            Catei uns quatro ou cinco ramos floridos e guardei na mala do carro. Na volta, peguei outros, enchi o banco de trás, o da frente, me cerquei de flores, levei para os vizinhos, conservei os talos dentro de um vaso com água na esperança de fazê-los renascer na propriedade da minha irmã, no  João Paulo, ou na casa da nossa família em Cabeçudas, cenário da minha infância.

            Foi inútil. Aquela árvore material desapareceu completamente, como caso de amor numa noite de verão. Daqueles que a gente chega a se perguntar às vezes, no meio das recordações, das imagens etéreas na memória, porque nada há de sólido, de tangível para trazer o objeto amado à nossa presença, como uma foto, por exemplo: aconteceu mesmo ou foi um sonho?

            Foi verdade, mas passou. Acabou, simplesmente. Morreu? Não, não morreu, porque havia saúde e vigor para viver um século. A árvore foi morta a golpes de machado por alguém que talvez a tenha plantado e amado, mas que se aborreceu dela, da sua presença tão bonita, mas tão incômoda para coexistir com uma piscina onde talvez não se banhe trinta dias num ano inteiro...

P.S.: O dono da casa 127, escritor Nereu Correa, mostrou esta crônica à dona da casa da buganvília, de tradicional família da elite florianopolitana. Ela me telefonou dizendo que também sentiu muito a morte da árvore, que durante décadas embelezou sua residência, mas não havia alternativa: as raízes estavam penetrando no encanamento e em outras partes subterrâneas da casa, ameaçando a segurança de sua estrutura.

 


[1] Oração da liturgia católica para os mortos. Missa fúnebre.

 

Lia Leal

Escritora

 

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