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Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

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Da felicidade de morar em Cabeçudas.

Publicado em 25/10/2020 Comente!

 Da felicidade de morar em Cabeçudas.

                                                                     

            Que me perdoem os menos favorecidos, mas viver cercado de belezas por todos os lados já é um privilégio. Não me levem a mal por falar em menos favorecidos. Se vocês estão pensando no que todo mundo pensa, estão errados. E para evitar mal entendidos eu me explico melhor.

            Menos favorecidos pode ser por não possuir uma casa em Cabeçudas. Por não apreciar paisagens marítimas. Por falta de sensibilidade para ver sempre um novo quadro em cada dia que nasce. Em cada dia que morre, com o sol esbraseando o céu. Derramando púrpura nas águas tranquilas do rio. Silhuetas inertes de barcos ancorados e de barqueiros vagarosos. Pontinhos que começam a cintilar timidamente, despretensiosamente, e quando nos damos conta já o céu é uma festa de beleza e cintilação. Um verdadeiro festival em homenagem à lua.

            Pode ser menos favorecido pela sensibilidade também para ver em cada coisa, por mínima que seja, uma mensagem de alegria, um motivo de amor, um tema de poesia. Um aceno de paz na brancura da gaivota que corta o azul do céu.

            Os mais céticos perguntarão pela falta d’água no verão, pela dificuldade de condução e por muitas desvantagens pelas quais os felizes habitantes de Cabeçudas padecem. E eu lhes direi que água, no momento, há de sobra. Dizem que medidas para um abastecimento perfeito para o ano todo também. O minhocão das ruas Jorge Tzachel e Camboriú é o atestado de procedência desta afirmação.

            Dificuldade de condução... Aqui a coisa começa a ficar mais séria. Mas há uma saída: entre uma carona e outra, a gente sonha com a Loteria Esportiva para comprar aquele carrão há tanto tempo cobiçado.

            Entre as dificuldades das quais padecemos está a dificuldade de conseguir empregadas para os serviços domésticos. Infelizmente, via de regra, elas se incluem entre os menos dotados de sensibilidade para com as belezas do local e partem em busca dos lugares menos pobres em divertimentos e mais ricos em paisagem humana. Para este problema não encontro solução. Quem quiser ajudar-me é só me arranjar uma empregada disposta a morar em Cabeçudas.

            Talvez muita gente pergunte o motivo desta explosão de amor pelo bairro que habito há um quarto de século. E eu lhes direi que amor sempre existiu. Amor pela gente e pela terra. Pela beleza da praia; pela agressividade das pedras, pela calma das águas, pela verdura de seus morros, cheios de araçás, goiabas e guabirobas. Um cenário perfeito para uma infância tranquila e feliz. Testemunhas silentes de pescarias, mergulhos do alto das pedras, cabos de guerra aquáticos, bolos de areia e uma infinidade de aventuras inenarráveis.

            Cada palmo desta paisagem evoca uma cena do passado. E eu me sinto renascer, revivendo tudo o que passou. De bom ou de ruim, de alegre ou de triste, de positivo ou de negativo. Porque tudo isso é vida, e o importante é viver, ainda que lutando arduamente.

            Hoje tive oportunidade de passar o vídeotape das imagens que trago guardadas na lembrança e cujo cenário é a praia de Cabeçudas. Foi a nova estrada do farol que me deu a plena consciência do quanto amo esta pequena praia. É simplesmente indescritível a emoção que senti ao divisar, lá do ponto culminante, toda a beleza que nos cerca. Itajaí todinha ali atrás do porto. A barra parece crescer aos nossos olhos e tem-se a ilusão de alcançar a boia em duas braçadas. De tocar os navios com a ponta do dedo. O Santa Clara à direita, logo ali. Camboriú mais adiante, pertinho também. Tudo lindo, lindo, lindo de embriagar! E tudo a dois minutos de carro, partindo do Iate Clube.

            A todos aqueles que amam e aos que não amam; a todos aqueles que têm ou não sensibilidade; a todos aqueles que jogam e acertam e aos que jogam e erram; a todos aqueles que creem e aos que descreem; a todos aqueles que sonham e aos que não sonham; a todos aqueles que esperam e aos que já perderam a esperança; crianças, jovens, velhos: ricos, pobres, remediados; amantes, amados, desamados, mal-amados; devedores, credores, avalistas; nervosos, impacientes, atormentados, frustrados, solidários: visitai a nova estrada do Farol e vereis tanta beleza que o vosso amor aumentará, a vossa tristeza se escoará, a vossa sensibilidade se regalará, a vossa imaginação se banqueteará, as vossas dívidas, preocupações e aborrecimentos desaparecerão, a vossa esperança renascerá e os nervos relaxarão. E vós sereis outros, ainda que por momentos fugazes. Sereis personagens de fábulas em reino encantado. E quando despertardes, unireis vossas vozes à minha em reconhecimento por tanta beleza posta ao alcance de todos:

            Bem-aventurados aqueles que tiveram a sublime ideia e o arrojo desta feliz iniciativa, porque deles será a glória de ver sua obra incluída entre os pontos de visita obrigatória a todos quantos cheguem ao Verde Vale do Itajaí.

 

 Lia Leal 

(1971)

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