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Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

Nos Garimpos da Linguagem Por Lia Leal

Nos Garimpos da Linguagem - Por Lia Leal

De volta à Ilha.

Publicado em 16/10/2020 Comente!

De volta à Ilha[1]

                 Domingo à tarde, voltando de uma peixada especial na casa de praia da Barra da Lagoa de uma amiga e vizinha também muito especial, numa breve parada no Andrinus, encontrei alguns amigos que fechavam com rodadas de cerveja o fim de semana que se estenderia até o dia seguinte para os funcionários públicos em comemoração ao seu dia. Convidada para o programa em elaboração, confidenciei, com peso na alma:

            - Amanhã a esta hora já estarei a caminho de Canoinhas pra dar um curso pelo SEBRAE. Parto do Rita Maria ao meio-dia, tendo antes várias providências a tomar. Coisas de fim de mês, pagamentos, essas chatices...

            - Canoinhas? Onde fica isso?, perguntou um gaúcho da roda.

            - Também não sei. Acho que é perto do Paraná, lá pelo oeste. Dizem que de ônibus dá umas oito horas.

            - O Izaltino não se conformou com o exagero da duração da viagem e foi conferir no mapa de SC colado na porta de vidro do restaurante:                      

            - Puxa, é longe pra chuchu!...

            Viajei, deixando para trás o paraíso que o destino me reservou para morar e onde me sinto muito à vontade. Nascida em Osório à beira de uma lagoa e sob o signo de peixes com ascendente em peixes; criada na praia de Cabeçudas, fiz um curso de educação sanitária de 2 meses em João Pessoa, cidade linda, cheia de praias; fiz outro curso da mesma área e igual duração em Vitória, que também é uma ilha, repleta de praias, inclusive uma artificial, Camburi; tendo vivido pouco mais de dois anos de um casamento efêmero no Rio de Janeiro, grande parte deles na Ilha do Governador; de volta à casa dos pais em 1969, morei um ano em Balneário Camboriú gerenciando o semanário O Sol, e depois de haver morado no Balneário do Estreito de meados de 1962 a dezembro de 1966, chego à conclusão: minha vida está irremediavelmente ligada ao mar. Está escrito nas estrelas...

Fato pitoresco

       E a lembrança de um fato pitoresco narrado pelo meu dentista, lageano, sobre o argumento de um funcionário público ilhéu resistente à ideia de levar a Capital para o interior, faz-me rir novamente, na solidão do quarto em que escrevo:

            - A Capital em Curitibanos? Mas como?! Não tem mar!...

            E aqui o lageano imita o sotaque ilhéu, carregando nos erres:

            - Ora veja você: não tem marrrr!

  Intimidade e respeito

            A questão do relacionamento do homem com o seu habitat é mais profunda e complexa do que parece. O mar e o seu entorno, a sua paisagem característica não passam gratuitamente pela nossa vida, principalmente na infância, pelas possibilidades de jogos e brincadeiras na areia, na água, as pescarias, os mergulhos das pedras.  O mar deixa a pessoa marcada pelo seu cheiro, pelo seu nascer e pôr-de-sol tão singulares, pelas noites de lua cheia, espargindo lantejoulas azuladas na superfície de águas serenas ou dando um prateado especial à espuma das ondas que quebram na praia, com aquele chuá mavioso[2] que embala o sono e acaricia os ouvidos.

            Apesar de toda esta intimidade com o mar e de ter aprendido a nadar aos setes anos por total instinto, sem professor, numa praia nada calma, eu o respeito muito. Se me atrevo a enfrentá-lo em solitárias jornadas nadando até à Ilha do Campeche, reconheço minha insignificância e impotência diante das brutas ondas de uma ressaca na Praia Mole. Já o desafiei nessas circunstâncias, na Barra da Lagoa, numa atitude que classifico de insanidade mental. Mas felizmente me voltou a lucidez antes de uma tragédia: desisti de passar o quebra-mar furando ondas que me dominavam sempre, dobrando-me como recheio humano de um gigantesco rocambole feito de violentas e irritadas águas salgadas, arremessando-me contra o revolto solo arenoso como se quisessem surrar-me pela teimosia e pela irreverência, chamando-me à razão para reconhecer a sua força e dobrar-me à sua superioridade.

            Na viagem para Canoinhas, deixando o mar cada vez mais para trás, no lusco-fusco do anoitecer, tive uma visão fantástica: as gotas da água da chuva no para-brisa, visto lá do meio do ônibus onde me encontrava, refletidas na janela do lado oposto que superpunha as imagens, vi claramente um pedaço da Costa da Lagoa naquela cena mágica, espelhada, e a oscilação suave do ônibus macio nas ondulações do asfalto me deram a nítida impressão de estar navegando naquela rota num veleiro classe oceânica de 22 pés como o Kiwi do Paulo Linhares. Indescritível!...

  A volta

            A primeira sensação de estar em casa acontece quando diviso, de São Miguel, as primeiras luzes da Ilha, o perfil da Ponte Hercílio Luz a me indicar que estou chegando. E esse momento de prazer e emoção, já o espero em ânsia, espiando a janela do ônibus a intervalos cada vez mais curtos, mal transponho a ponte de Tijucas.

            Em São Francisco da Califórnia, onde passei janeiro e fevereiro de 1991, não cansava de comparar as duas cidades que têm muito em comum, inclusive a ponte no mesmo desenho (a deles é maior e avermelhada), guardadas as devidas proporções físicas, socioeconômicas e culturais.

            Ao rigoroso frio do inverno do norte californiano, lá em cima já a meio caminho do gelado Canadá, cheguei bronzeadíssima, levando na pele a marca do sol da primavera e pedaço de verão que começava, e na alma, uma saudade antecipada. Era dia de Natal e, num contraste gritante com o calor que deixara no patropi louco e maravilhoso, dentro de camadas de roupas grossas eu me sentia uma cebola ambulante. E foi nessa condição que tive na Golden Gate uma visão da Ponte Hercílio Luz, voltando de Sausalito (que pérola de cidade, que marina maravilhosa, aliás, quantas marinas há em toda a costa americana!) de barco, ao anoitecer, com tempo nublado. Dessa visão tenho prova: fotografei através da vidraça do restaurante do barco, o que acrescenta um toque surrealista à minha arte. Diga-se de passagem: como arte fotográfica, uma droga; mas como registro do momento onírico vivenciado, perfeito. Coisa própria da paixão que nutro por esta Ilha.

 Marina

            Com a passagem marcada para nove de março, fiz o diabo na companhia aérea, em vão tentando antecipá-la para vinte e dois ou vinte e três de fevereiro, dando-me de presente de aniversário, no vinte e cinco, coisas intransportáveis mas que já estavam todas virtualmente comigo, dentro do  meu coração: o meu mar, a minha Lagoa, as minhas praias, o meu povo (nem sempre civilizado como eu gostaria!), o meu calor, o meu carnaval, a minha música, a minha comida, os meus amigos, a minha cama, as minhas plantas, o panorama visto da minha janela à beira-brejo... Ah!, minha Ilha da Magia, eu me rendo aos teus encantos e me confesso completamente apaixonada... Como é bom voltar para casa, fazer parte da tua gente! Como eu queria ver-te um pouco mais bem cuidada, mais ajeitada, com aquela marina dos meus sonhos fazendo divisa entre as baías Norte e Sul... Por tudo que conheço do mundo – Europa e Estados Unidos – sinto que essa marina está fazendo falta à paisagem das nossas águas. Dispomos de tudo para ter aquela maravilha que é a marina, a embelezar ainda mais a nossa Ilha. E ponho-me a indagar:

            - Como é que lá eles têm tantas marinas, sofisticadas, com trapiches flutuantes, como vi em Shore Line Village (Long Beach), e não agrediram a Mãe Natureza? Como é que aquela ilha verdejante, toda arborizada, em frente à mesma Long Beach, abriga uma moderna estação de tratamento de esgoto[3], sem problema algum?

           

 


[1] Publicada n’A Folha da cidade, Florianópolis, em 1992.

[2] Agradável aos sentidos; enternecedor; suave. Dicionário Michaelis p. 1338

[3] Dei duas fotos desse local ao meu amigo e colega celesquiano engenheiro Lício Mauro Ferreira da Silveira, então deputado estadual e presidente da CASAN, para que ele analisasse a possibilidade de aplicar processo semelhante em SC. Nunca soube se o assunto chegou a ser considerado. Nem o saberei jamais, porque ele faleceu alguns anos após essa nossa conversa.

 

Que me perdoem os contras, os ridículos idiotas defensores do atraso, para os quais marina é coisa de burguês em detrimento dos pobres, mas sou plenamente a favor de conservar sim, estagnar não. Justamente porque te amo, minha Ilha, é que te quero bela e progressista. Para amar-te cada vez mais e não ter vergonha diante das tuas congêneres. Para amar-te cada vez mais e ter motivo para orgulhar-me de ti.

 

Lia Leal

Escritora

 

 

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