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A Vida é Crônica - Por Luiza Kons e Samantha Sant'Ana

A Vida é Crônica Por Luiza Kons e Samantha Sant'Ana

A Vida é Crônica - Por Luiza Kons e Samantha Sant'Ana

Infância

Publicado em 08/07/2018 Comente!

Samantha Sant'Ana e Luiza Kons / Foto: Miriam Amorim

Samantha Sant'Ana e Luiza Kons / Foto: Miriam Amorim

O estômago doía. Ela franzina e mais alta que as meninas de sua idade, se recusava a ir até a cantina, seus colegas que sempre tinham lanche diziam ‘’o lanche da cantina é muito ruim, não dá para comer de jeito nenhum’’, a menina balançava a cabeça concordando.

De fato, o odor era um tanto quanto característico. Mas, ao sentir as tripas por dentro se contorcem, aquela espécie de aroma era lá atrativo. Jamais chegou a provar um nada que fosse. Não podia. Ao menos não em sua mente. Aí seria vista como fracassada e indigna daquele grupo. Ou quem sabe aquele grupeto não expressasse nada.

Na menina se viam os primeiros sinais de acne a pipocarem pela face. Ela sentia uma vergonha violenta disso. No colégio público, antigo e acinzentado contara outras duas crianças com esse mal precoce: uma menina aloirada de franja e um menino gordo. Havia também uma mãe ou avó, que buscava uma criança, o corpo coberto de verrugas de variados tamanhos espalhados. De alguma maneira, se enquadrava com esses três pessoas colhidas da multidão, os observava ao longe e pensava ‘’são nojentos como eu’’.

Os olhos eram ainda mais atentos, ao corpo enrrugado da mulher alta, magra e cabelos curtos e pretos, será que algum dia lhe brotariam essas coisas por sua derme? E aí toda a classe de gente a olharia com estranheza? E mais ainda, teria de desviar o olhar como se não soubesse o motivo do espanto da gente toda? Para evitar o constrangimento ou uma baixeza de espírito, fitava a mulher ao longe, e queria saber nas profundezas do seu ser o motivo de os dias passarem e sua curiosidade não: já não vira, oras, que a sujeita tinha caroço por todo o corpo? Imaginar a quantidade de bolitas existentes nela, ou o porquê daquela anomalia, ou ainda se todos os dias brotavam outras novas era por demais doentio.

Já do estômago que se doía, a vida tem desses espasmos onde em micro lapso de instante se ocorre algo decisivo e nem tanto. Ah! Como ela queria frequentar a cantina paga, coxinhas, balas e outras coisas mais, e então em um dia qualquer semanal a fome do crescimento nos seus 29 quilos e nove ou dez anos, gritava mais alto, e no meio do pátio amórfico na multidão de pequenos seres encontrou no chão 10 centavos. Sem nenhuma dúvida correu até lá, e na grandeza da moeda pode comprar um conjunto dessas balas enfileiradas, arredondadas cada qual de sua cor. Tomou a primeira na boca, e outras se seguiram - tão doces eram, uma espécie de remédio as tripas do corpo e da mente.


Por Luiza Kons
 

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