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Bondeconomia - Por Fernando Bond

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DONA FRANCISCA, ESTRADA ESTRATÉGICA PARA SC, AGORA PASSA PELO TOMBAMENTO

Publicado em 02/07/2018 Comente!

Dona Francisca atual / Foto: Fernando Bond

Dona Francisca atual / Foto: Fernando Bond

Rio Negrinho mantém um dos poucos pontos originais da histórica Estrada Imperial Dona Francisca, a “Franciscastrasse”, cuja construção iniciou em 1858 sob ordens do então governo imperial. A estrada continua a ser hoje o caminho do progresso, mas acima de tudo é uma atração turística que leva às atrações turísticas do Planalto Norte. É uma estrada importante para SC: foi a responsável em levar o desenvolvimento àquela região, a partir de Joinville. Para tornar-se carroçável, foi toda macadamizada e, é justamente este macadame original que ainda é possível observar em Rio Negrinho (foto ao lado).

Agora, a Fundação Municipal de Cultura deu início ao processo de tombamento, em apoio às propostas apresentadas pela Academia de Letras do Brasil em SC/Seccional Rio Negrinho e Associação dos Historiadores. “Na semana passada, após o prefeito Julio Ronconi encaminhar à Fundação Municipal de Cultura o manifesto da Academia e da Associação, pesquisamos junto ao Consórcio Quiriri uma proposta que já havia sido encaminhada ao Iphan. No entanto, o direcionamento do Iphan foi para que o Consórcio buscasse outra via legal”, explica Adilson Figueiredo, presidente da Fundação Municipal de Cultura. Conheça um pouco da história dessa estrada, com reportagem de Fabiano Kutach
 

HISTÓRIA QUE RETRATA NOSSAS DIFICULDADES ATUAIS

No momento em SC luta por obras rodoviárias e ferroviárias que possam da infraestrutura para o desenvolvimento econômico e turístico do estado para os próximos 30 anos, conhecer a saga da construção da Dona Francisca é dar uma mostra da tenacidade dos catarinenses. Ao abrir a Estrada da Serra, a meta era ligar o litoral do município de São Francisco do Sul e a colônia Dona Francisca com o planalto de Curitiba. Isto interessava não só à comunidade local, como também, ao governo Imperial, que, em 1858, custeava os trabalhos com subvenções mensais. A obra de vulto, que nascera como uma iniciativa particular, passou a ser um empreendimento imperial. O traçado da Estrada da Serra foi definido pelo engenheiro e agrimensor Carl August Wunderwald, que se embrenhou pela Mata Atlântica em duas excursões realizadas anos antes: ele caminhou pela região que compreendia o vale do rio Cubatão, Rio da Prata a Rio Seco.        

Elevado ao posto de diretor da Colônia em 1858, Léonce Aubé assumiu a administração dos trabalhos e deu início à construção de uma das mais valiosas obras da Joinville daqueles dias. Carlos Ficker, no livro "História de Joinville - Crônica da Colônia Dona Francisca" reproduz as instruções que deveriam ser observadas na construção da nova estrada: "1º - a estrada terá 30 palmos de largura, contados entre as arestas das valetas laterais; 2º - as valetas serão abertas de ambos os lados da estrada, sendo em planície e em morros somente do lado de cima destes e terão cinco palmos de largura e três ditos de profundidade". No total, eram 17 itens, que descrevem minuciosamente como deveria ser a "Franciscastrasse". 

A Província do Paraná temia que o escoamento da produção pela Estrada Dona Francisca diminuísse a movimentação de riquezas em Paranaguá, Morretes e na Estrada Graciosa devido ao escoamento direto até São Francisco do Sul. Por isso, não apoiava o novo empreendimento e tentava, nos gabinetes imperiais, fazer com o que o ponto de chegada não fosse Rio Negro (como havia sido estabelecido), mas Curitiba. Com a definição por Rio Negro, o Paraná fez mais uma artimanha, transferindo para a estrada - no meio da mata - um ponto de coleta fiscal. O posto ficava em área de SC, que não tardou a reagir. Enquanto cada lado procurava defender seus interesses, o governo imperial decidiu suspender os pagamentos das obras, alegando, erroneamente, que o ponto final ainda não estava definido. Tanto o Paraná quanto SC saíam perdendo.          

Em 1869, durante todo o ano as obras na Estrada da Serra ficaram paradas por falta de verbas. No início da década seguinte, cerca de 30 quilômetros da Estrada estavam concluídos e o traçado iniciava no centro de Joinville, passava por Pirabeiraba e atingia a região do Alto da Serra. Daí por diante até Rio Negro, havia apenas uma picada, que em dias de chuva ficava intransitável. Ainda levaria outras décadas para que a "Franciscastrasse" fosse concluída. A construção da estrada Dona Francisca deu novo impulso à Colônia. Centenas de colonos estavam estabelecidos na região e encontraram nos trabalhos de construção o único meio de terem dinheiro na mão. A atividade comercial, de indústria e a agricultura floresceriam somente depois com a abertura do novo caminho.


Dona Francisca Macadame / Foto: Fabiano Kutach

Com o acesso, teve início o comércio de erva-mate e de madeira que descia a serra em busca da Colônia. Na volta por São Bento, os carroceiros passavam carregados, trazendo produtos para suas casas. Os carroções com toldo de lona, puxados por seis ou oito cavalos, eram chamados de "carroções de São Bento" ou "São Bentowagen" e ainda hoje estão presentes na memória dos moradores mais antigos.         

A Rua Dona Francisca começa no centro de Joinville e atravessa a cidade em direção à serra. Além do perímetro urbano, corta também o distrito industrial, o distrito de Pirabeiraba, a BR-101 e segue até o município de Rio Negro, passando por Campo Alegre, São Bento do Sul, Rio Negrinho e Mafra. A rua passou a ser chamada de Estrada Dona Francisca a partir da BR-101 e presenteia os viajantes e moradores com a exuberância da Mata Atlântica que cobre toda a região.

Em 1865 o primeiro grupo de viajantes vindos de Curitiba descia pela estrada e era recebido com festa na colônia Dona Francisca. No dia seguinte, um outro grupo chegava trazendo um carregamento de erva-mate e retornava levando couro curtido do curtume de Jacob Richlin. Era o começo do ciclo da erva-mate. Na época, a colônia Dona Francisca tinha 2 mil habitantes e, embora já despontassem estabelecimentos comerciais e prestadores de serviço da própria comunidade para atender a população, a agricultura ainda era a principal atividade dos imigrantes europeus que continuavam chegando ao lugarejo.

 

 

 

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