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Raspas e Restos - Por Francisco Alpendre

Raspas e Restos Por Francisco Alpendre

Raspas e Restos - Por Francisco Alpendre

Me deixa ficar, meu não Deus

Publicado em 16/09/2016 Comente!

Domingos Montagner

Domingos Montagner

Posso afirmar que sou um homem niilista. Já passei do ponto da hipocrisia da vida de ficar inventando crenças pra satisfazer um suposto vazio. Não tenho esse vazio. Não acredito em missões, destinos, idéias concebidas ou pré-concebidas. Razões de viver. Porque estamos aqui. Energia cósmica. Grande arquiteto do universo. Agregar valor. Empoderamento. Ondas, essas tolices que fazem o Facebook ganhar bilhões. Esses papos maçons. Não creio, lamento informar.

Sou um niilista, fruto do acaso de um mundo insignificante perante o Universo, cujo encontro básico de duas pessoas me gerou. Já acreditei em Deus, já desacreditei. Cristo idem. Pesquisei, pesquisei, não encontrei, fazer o que? Hoje creio no amor da minha filha: conquistado por ela, bom que se frise. Lembro do sorriso dela, de como corre pra me abraçar. Como em todo o abraço sempre digo que está fraco, que vou ter que fazer outra filha por aí pra compensar. Nessa hora, ela fica com ciúmes e me abraça mais forte ainda. Creio nisso. Creio numa refeição bacana. Numa mulher inteligente. Em sexo com amor. Em sexo sem amor, embora com amor seja muito melhor. Em amigos que me fazem bem. Em pais que se transformam. Em caráter deles. Creio nisso.

Carrego memórias. Cheiros e lembranças das mulheres amadas. Atrações e gostos da que está por vir. Ou que já chegou, vai saber. Descobri o que era morte muito cedo. Com 11 anos senti o corpo gelado da minha irmã, então com 16. Curioso lembrar daquilo. Corpo frio. Fui pra casa, assisti a um filme, sozinho. Vídeo cassete, Máquina Mortífera 2. Dormi. Acordei. Pensei que tudo tinha mudado. Fui ao velório. Que nada, seu corpo continuava glacial. Não acredito em piedade nem pena. Diariamente, crianças são esquartejadas em algum buraco da África e a dor de lá é muito maior do que cá. Portanto, não precisava dela.

Encontrei uma resistência para a morte. Passei a vê-la como algo natural, um approach oriental. Meu avô, uma pessoa exemplar, faleceu quando tinha 20 anos. Não fiquei triste. Não derrubei uma lágrima. Fui ao bar enquanto ele era velado. Cantei uma musica italiana no karaoke (ele era neto de italianos e cantar na língua à época fazia o maior sucesso com as gatinhas). Só me trouxe boas lembranças. Não acredito em missão, mas com 20 anos a gente tem que acreditar. Cumpriu a sua. Criou quatro filhos. Nunca disse um palavrão. Ruborizava em cenas de sexo na televisão. Torcia pelo Palmeiras, mas o coração não aguentava. Detestava Lula, Jô Soares, Leda Nagle, Folha de São Paulo, não necessariamente nessa ordem. Saudade, simples assim.

 A tal resistência parece que me trouxe um mal, que hoje considero curado. Até hoje não tinha medo de morrer. Mas hoje, com a morte desse ator afogado passei a ter. O medo, bom que se frise.

Quem conhece um pouco da vida, sabe o que esse moço passou. . Tenho amigos atores, nenhum famoso, todos pobres, todos admiráveis. Essa turma de arte é muito bacana, muito inteligente, descolada, etc.. Este ficou famoso há uns cinco anos, já maduro. Li que era ator de circo, teatro. Passou décadas de perrengue, com certeza.

Sem dinheiro pro leite do caçula porque ator que não é global no Brasil, já viu. Deve ter se separado porque mulher não aguenta muito homem bonito sem dinheiro. Esse período da vida não o deixou ficar deslumbrado com a fama. Cara de boa gente, bom pai, bom amigo, bom tudo. Cara daquela pessoa agradabilíssima que sempre dá vontade de convidar pra jantar. E o cidadão morre afogado, no auge da neo-brilhante carreira, confirmando meu nada e o acaso.

Continuo descrente. Mas, pela primeira vez na vida, deu medo. Deu medo de não concluir aquele novo livro que teima em emperrar. Medo de não ver mais minha filha pedindo pra comprar a nova Baby Alive. Medo de não ver minha avó, com 93 anos, pegar o óculos para ler o Estado de São Paulo de cabo a rabo, como faz há 37 anos, pelo menos. Receio de bater o carro, cair o avião. Medo de não concluir aquele projeto, fechar aquele contrato. Medo de não poder mais ver meus melhores amigos e rir o dia inteiro da cara deles (e eles da minha).  Medo de morrer no auge e não ter nada ali pra me segurar, nem uma pedra. Parece que hoje me senti menos imortal. Vontade de me cuidar mais, de perceber que tenho 37 anos, tá na hora de virar hipocondríaco, fazer check-ups, ler bulas de remédio. Não quero ir. Não agora.

Por isso, meu não Deus, minha absoluta falta de crença no mundo, te peço, não me deixa ir, não. Me segura numa pedra, não me deixa entrar no rio. Me avisa do que está por vir, não me deixa trilhar caminho ruim, me perder na mata. Sacoleja, avisa, manda um sinal, faz alguma coisa. Não ouso discordar de Você. Ainda assim, se esse não Senhor quiser me levar, já aviso: não aceito de bom grado, vou contra a minha vontade, mas que assim seja. Quando ela ,a tal da Morte chega, não avisa. Portanto, só peço que se chegar cedo, que me pegue como hoje estou: coerente, convicto, consciente, seguro, inteligente, sóbrio, são, vivo, feliz mas não completo. Tenho certeza que terei cumprido minha missão, seja lá o que isso signifique.

Dedico de maneira tola esse texto ao meu não amigo Domingos, que certamente não o lerá. Descanse, irmão. Segue teu rumo, segura na pedra da morte, nada firme no leito disso que chamam de sentido. Como dizia Milton: diga uma palavra, manda um recado e, se puder, não me deixa ir contigo.

 

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Raspas e Restos

Por Francisco Alpendre