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Raspas e Restos - Por Francisco Alpendre

Raspas e Restos Por Francisco Alpendre

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Parece Cocaína… Mas é só Steve Jobs

Publicado em 17/11/2015 Comente!

Foto divulgação da internet

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Enfim, você decide voltar à vida noturna. Tá certo, o saco não é o mesmo. A vontade não é a mesma. Tudo igual: mulheres, afetados, “galera”. O som repete as mesmas notas. Mas vá lá. Pelo menos você tem a companhia daquele grande amigo. Horas de risadas, inteligência, algo diferente são garantidas.

Só que não. Seu melhor amigo sequer lhe dá atenção. Você fala sozinho e, eventualmente, quando diálogos existem, eles são curtos, toscos, constantemente interrompidos porque você passou a viver em segundo plano. Você descobre que seu melhor amigo tem um novo melhor amigo: mede cerca de 10 cm de altura, brilha no escuro, tem vida útil de 6 horas (3 com Whatsapp) e sempre usa a mesma camiseta: de maçã mordida.

Parabéns: você e o resto da humanidade foram trocados por um celular.

A falta de educação, bom-senso, a ansiedade e a angústia que as pessoas vivem hoje em dia com seu aparelho celular só pode ser comparada ao sentimento análogo ao do pior dependente químico. Do toxicômano, viciado. Do craqueiro, cheirador contumaz, o incontrolável. Só isso pode explicar a sensação de endorfina que brota da cabeça dessa gente toda vez que o sinal do whatsapp acende. Toda vez que o “plim” toca, avisando que chegou email novo, ainda que seja aquela imperdível oferta de prótese peniana. Ou um bilionário saudita que achou seu email e precisa de um CPF para retirar cem milhões de dólares que ficaram bloqueados numa conta da Colômbia do fornecedor de meias usadas da nora de Pablo Escobar. Enfim, os exemplos são inúmeros. E seriam cômicos, se não fossem trágicos.

Se o leitor estivesse conversando com alguém no exato momento em que uma pessoa, qualquer uma, chegasse do lado e seu interlocutor simplesmente parasse de lhe dirigir atenção e começasse um animado papo com o novo chegado, o que faria? O que aconteceria? Bom, qualquer um com o mínimo de orgulho próprio e senso de respeito dificilmente dirigiria a palavra novamente a esse símio pós-moderno. Isso acontece todo dia, no entanto, só que o novo chegado é o celular. Quantas conversas, quantas interações já foram interrompidas por estímulos absolutamente estranhos àquele diálogo. E por que aceitamos tão passivamente isso?

Como tudo no Brasil passa pelo argumento de autoridade, pelo “com quem pensa que está falando” parece que quanto maior o cargo, maior a suposta importância que a pessoa tenha ou julgue ter, maior o direito de ser mal educado com o celular. Recordo-me de um secretário de município no Mato Grosso que nunca me olhou nos olhos, em infindáveis reuniões que tivemos. Todas, sem exceção, travadas com o olhar no monstrinho platinado. Exceções são raras. Recentemente trabalhei com um prefeito que jamais aceitou ser interrompido, seja por uma ligação, seja por uma mensagem de Telegram. Desnecessário dizer quão produtivas foram e como todas fizeram os interlocutores se sentirem apreciados e respeitados.

O brasileiro, o paranaense, o ser humano precisa aprender um código de ética adequado para o uso de seu aparelho celular. Tocar-se de sua falta de educação. Seu desrespeito com quem está ao seu lado. Aprender que tem tempo e hora pra tudo. Que aquele sms pode esperar ali, quietinho. Que o sinal de “zap-zap” pode ser desligado e utilizado a seu favor. Você o comanda, não o contrário. Notícia ruim ou boa demais chega cedo. A notícia da mãe enfartada ou o filho que nasceu saudável será transmitida por um drone. Ou por um fofoqueiro qualquer.

Já decidi: ou fala no telefone, ou fala comigo. A mensagem é importantíssima e imperdível? Responda, depois a gente continua. Recuso a ter reuniões profissionais permeadas por elas. O foco vai embora, o sentido se perde. Não existe produção. Soa claro que estamos perdendo a melhor parte das nossas vidas, nossos melhores momentos em troca do nada. Da virtualidade. Que pode ou não estar ali. Medo do real? Talvez nossas vidas virtuais sejam bem mais interessantes? Caros: desculpe informar – a foto do instagram é montada. Os amigos do facebook, boa parte deles, não são amigos. Lamento ser o Morfeus que lhe dará a pílula azul do mundo de Matrix. Mas a nossa realidade, pelo menos, é palpável. E ainda carrega um belo bife angus, nas melhores casas do gênero.

Reflita acerca. Prefira coisas reais. Pessoas reais. Não troque seu amigo, sua namorada, sua esposa, por um sinal. Desculpa te dizer isso, mas Mark Zuckerberg nunca será seu amigo. E aquela gata que está à milhas de distância continuará assim, por muito tempo.

P.S: Se não entendeu o título ou achou ousado demais, você está escutando muito Henrique e Juliano. No Spotify, provavelmente.

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