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Raspas e Restos - Por Francisco Alpendre

Raspas e Restos Por Francisco Alpendre

Raspas e Restos - Por Francisco Alpendre

O TIMECO do Brasil e o Grande legado da Copa

Publicado em 08/07/2014 Comente!


Caro leitor, o fim da Copa está logo ali. No final da semana vamos saber afinal se a onça vai beber água, se as garrafas vazias foram vendidas, se algum daqueles craques, outros nem tanto, terão enfim seu imortal nome gravado no panteão dos craques inesquecíveis: os que ganharam uma Copa do Mundo.

 

Escrevo essas linhas horas antes da semifinal Brasil x Alemanha. O texto é válido para qualquer resultado, seja para um lado, seja para o outro. A turma de Fred pode de fato conquistar o título. E se o fizer, conseguirá um grande legado da Copa. Esse timinho, esse timeco, esse Avaí e Figueirense da Copa, esse legítimo time de perebas pode ser campeão do mundo. E desaparecer de vez com o fantasma do falso vencedor.

 

Desculpe dizer isso, leitor. Mas esse Brasil por quem estamos torcendo é um timeco. Ganhando ou perdendo, é um timeco. Uma baita dum a patuléia. O leitor deve se espantar. Como, Alpendre? Timeco? Que falta de respeito é esse. Repito quantas vezes for necessário, em CAPS LOCK: TIMECO. Time que tem Fred, Hulk, Jô, Bernard, Luís Gustavo, Marcelo, Daniel Alves e um goleiro que joga no Canadá são um timinho. Serve pra ser um combinado que come feijoada na Ucrânia, jamais vestir o manto sagrado da Seleção brasileira, em condições normais. Mas fazer o que? A entressafra foi pesada, não renovamos, o único cracaço que tínhamos foi alvejado nas costas por um maluco sem asas colombiano. Nesse jogo pode acontecer de tudo, inclusive nada. O Brasil, ainda mais sem o único general que nós tínhamos Neymar Júnior, é um bando de soldados rasos amontoados. Quantos comentaristas, quantos colunistas futebolísticos, quantas ponderações e afins, pra dizer o que ninguém disse: somos uma baita duma ralé.

 

Não fosse a Copa no Brasil, com certeza não passaríamos da primeira fase. O Brasil até pode ganhar, porque timecos de vez em quando ganham Copas em casa (a Argentina de 78, um timeco, está aí pra provar). Mas esse é um mero assunto para puxar o gancho do principal do texto: descobri qual é o grande legado da Copa – é enterrar de vez o time de 1982. Louvarmos os vencedores. Se ele for suplantado por esse timeco.

 

Pra quem é muito novo ou muito velho, vou relembrá-lo: em 1982, o Brasil montou, do meio pra frente, um timaço, só com craques: Zico, Falcão, Sócrates, Eder, Cerezo, Júnior, Leandro, etc. Perebas mesmo eram apenas 4: Serginho Chulapa (escalado no frigir dos ovos no lugar do lesionado e inesquecível Careca), Oscar, Luizinho e Valdir Peres. Valdir era um frangueiraço, legítimo representante dos inabilidosos goleiros brasileiros, iniciado com Félix e outros menos citados.

 

Pois bem, senhores: era um time que existia pra dar espetáculo. Só toque de classes. Uma série de gênios. Naquele time, do atual, jogaria a dupla de zaga e o Julio César disputaria posição com o Valdir. Esse é o time incensado como uma das melhores Seleções brasileiras da história. Cantado em verso e prosa por quem tem mais de 40 anos. Os adjetivos não faltam: inesquecível. Mágico. Futebol maravilha. Belo. Leal. Expoente. Enfim, todo mundo que fala nessa Seleção enche os olhos de lágrimas. Relembra como se estivesse em julho de 1982 em Barcelona.

 

O leitor que tem menos de 35 anos e não souber muita coisa de futebol a essa altura do campeonato deve estar feliz da vida: o Brasil tem um título mundial que ele nunca tinha ouvido falar. 1982. Somos hexa, não penta. Pois é, leitor. Não temos. Não só não temos como aquele timaço nunca chegou nem em um semifinal de Copa. Na segunda fase daquela Copa (o mata-mata das oitavas só começou em 1986) a classificação à semi só ocorria num triangular. O Brasil ganhou da Argentina, mas levou um vareio de bola da Itália. Tomou uma ré de 3 a 2 mas era pra ser 4, já que o árbitro anulou um gol legal de Antognoni quase no final da partida. O Brasil era um timaço, mas não tinha defesa. Um técnico inapto que não sabia defender. Enfim, aquilo ali estava fadado a acontecer. Ou seja: não só não ganhamos como não chegamos nem nas semi-finais. Piada de salão, como dizia o companheiro Delúbio.

 

Aí o autor se pergunta: por que tanta devoção? Por que tanto louvor? Ora, senhores. Brasileiro, o brasileiro puro, de alma e DNA locais, ama defender um derrotado. Temos desapreço por vencedores. Pelé fez mais de mil gols, ganhou 3 Copas sozinho, é reconhecido até em Togo e só leva pedrada aqui dentro. Nem respeito tem. Fora Gustavo Kuerten, Pelé e Senna, que outros grandes ídolos que temos absolutamente vencedores? Preferimos o jogo bonito, mágico, a nostalgia da derrota à dureza e aspereza da vitória. Grande craque da vida: Zico. Nunca passou de quinto lugar com a camisa da Seleção. Até hoje cantado em verso e prosa como um gênio incompreendido.

 

O leitor já imaginou se o Dream Team americano de 1992 voltasse de Barcelona com o quinto lugar? Seria recebido certamente com tomates vermelhos no JFK. Se o Santos de Pelé tirasse quinto lugar no Mundial de Clubes de 1962? Se César Cielo nadasse lindamente, fazendo os movimentos perfeitos e conseguisse o quinto lugar em Pequim? Se a Angela Merkel tirasse sexto lugar na votação dos gabinetes para o Parlamento alemão? Pois é. E ainda assim o fantasma desse bando de derrotados de 1982 permanece vivo e firme.

 

Lentamente fomos mudando. O time de 94 devagarzinho vai cavando seu espaço nos corações dos vitoriosos. Os que vieram depois, idem. Fomos lentamente tomando apreço por quem venceu, jogasse bem ou mal. Com uma outra recaída, é verdade. Um vencedor como Rivaldo ainda é tratado como um Zé Mané. Zico e sua trupe, no entanto, não. São gênios. Monstros. Deuses sagrados. Incontestáveis. Não vamos negar: se temos ainda um pequeno gene de vira-latas. De gostar do coitado. Do humildezinho. De quem não gosta de aparecer. De quem se esforçou muito, deu show, mas chegou em quinto lugar. O brasileiro gosta ainda de quem fala baixo, não contraria os poderosos, o status quo. Se deu alegria, deixa o homem em paz. Tem crédito. Gostamos de ficar do lado de coitados.

 

Até esse ano, os amigos de Zico ainda tinham uma chance de reverberar no imaginário semi-derrotado de nosso povo. Mas Sócrates, Cerezo, Éder e afins não conseguirão suportar esse golpe. Esse timeco absurdo que o Brasil montou, com esses grandes pernas-de-pau como Jô, Hulk, Willian, Bernard e sua “melancolia nas pernas”, Maxwell, Paulinho e mais um bando de cabeças de bagre que não engraxariam a chuteira daquele time de 30 anos atrás pode ganhar uma Copa do Mundo. Coisa que os estelares craques do passado não conseguiram. Na prática, o que isso significa? Jamais poderemos duvidar de ninguém. Tudo é possível daqui por diante. Ergueremos um muro de apenas vencedores. FHC com o fim da inflação. Roberto Campos. Ademar Ferreira da Silva. Rivaldo. Os vencedores desprezados serão enfim reconhecidos. Ergueremos bustos aos nossos heróis. Estaremos perto, muito perto de virarmos um país sério. Pode escrever aí e me cobrar depois: se esses bando de cabeças de bagre levantarem a Taça Fifa em 13 de julho, nunca mais um perdedor terá coragem de levantar sua voz como se vencedor fosse. Os idiotas voltarão a ser modestos. O chato a favor ficará quieto, como merece. Se não ganharem? Prepara-se. Perdendo para a Alemanha ou no domingo, diariamente esses tipos continuarão a existir. E esportivamente de 4 em 4 anos o fantasma da Copa da Espanha retornará. Ainda mais branco. E mais perdedor.

 

Por isso, afirmo: obras de infra-estrutura? Mobilidade urbana? BRTs? Bobagem. O grande legado da Copa será mostrar que qualquer um pode vencer. Qualquer um mesmo. E ser louvado por isso. Fred está muito perto de mudar o Brasil de vez.

 

Twitter: @falpendre

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