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Raspas e Restos - Por Francisco Alpendre

Raspas e Restos Por Francisco Alpendre

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A naba do whatsapp

Publicado em 28/04/2014 Comente!


Estava em uma viagem de trabalho, há cerca de dois anos, em Viena, quando o celular começa a apitar. Viena, pra quem não sabe, tem wi-fi até em banheiro público. Abro o bicho, creio que à época era um daqueles Blackberrys que só eu gostava. Uma lista com ua monte de gente junto. Gente chata, falando de assunto chato. Desliguei. Desabilitei o programinha.

Meses depois, recupero um Iphone pouco usado, um chip que não utilizava. Umas 10 mensagens, de meses atrás, ignoro.

Um ano atrás, precisava falar com uma pessoa. Tinha que ser algo despojado, incomum. Mensagem não bastaria. Abri o tal do Whatsapp. Mandei a mensagem. Em 10 segundos, ela recebe. Em 60 responde. E vamos falando por ali. A sensação deve ser similar ao do jogador que acaba de ganhar sua primeira aposta – (nunca gostei de jogar, mas presume que seja uma liberação de endorfina similar). A partir daí, não parei mais – a qualquer minuto, a qualquer contato, qualquer um. O whatsapp virou meu instrumento principal de tudo. Encontros amorosos, profissionais, pessoais, impessoais. Enfim: jamais foi tão fácil acessar alguém e ser acessado.

Pois é: aí começaram os problemas. O whatsapp acabou com a última fronteira entre o pessoal e o privado, que começou a terminar quando o celular popularizou-se. No primórdio dos tempos, não sei se você se lembra, um ou outro rico tinha celular. Depois, um ou outro filho de rico passou a ter o bichinho. Depois de 1998, a classe média. Depois os filhos da classe média. Agora, até filho de celular já tem celular (eles se reproduzem por cissiparidade ou brotamento). Mas jamais vi algo espalhar tão rápido quanto o whatsapp.

O aplicativo passou a existir até como condicionante de popularidade instantânea. Por ter uma função que permite perceber a última vez (com hora e minuto) que alguém acessou o aplicativo e com dois risquinhos do lado dela bastava juntar lé com cré que se chegava a uma conclusão: fulano leu minha mensagem, mas não quis me responder. Milhares de conclusões chegavam à cabeça do possível pretendente financeiro ou amoroso. Beltrano não quer fazer negócios comigo. Siclano não me ama mais. Enfim, haja Rivotril pra tanta nóia sem sentido.

Se por um lado alguns afirmam que a produtividade aumentou, discordo categoricamente. Tá certo: é possível encaminhar mensagens diretas de assuntos comerciais pendentes e isso ser resolvido em minutos. Ocorre que a nabinha do whatsapp permitiu que grupos fossem criados. Aí aquele bando de desocupados amigos seus que não têm nada pra fazer da vida passaram a juntar-se para não fazer nada da vida virtualmente. E até você, ocupado pra caramba, passou a perceber que a vida pode ser mais doce quando, no meio do expediente, recebe aquele vídeo de um macaco jogando tênis de mesa. E você passa a ser um desocupado virtual. Durma-se com uma consciência dessas.

Onde a produtividade realmente explodiu foi no quesito sexual. Convenhamos: aos solteiros, é muito tentador falar com 7 mulheres ao mesmo tempo e ver onde se encaixa o que. Escrever certo e bem nessas horas passou a ser fundamental. O aplicativo, portanto, passou a exigir um pouco mais de leitura do brasileiro médio, para conseguir ir pra cama com alguém. Taí uma externalidade positiva: ficamos menos burros para ficarmos sexualmente mais ativos.

O assunto passa a ficar realmente preocupante quando você percebe que está jantando e todo mundo está olhando pro celular, mandando mensagens uns para os outros com fotos desse mesmo jantar. Não, isso não é mentira. Aconteceu comigo ontem à noite. O que me leva a uma básica conclusão: onde o programinha realmente importa é para os apaixonados ou os que amam incondicionalmente. A sensação de receber e mandar mensagens para a pessoa amada, com natureza recíproca é indescritível. E imediata.

Portanto: taí uma sugestão para o Mark Zuckerberg – dono da bagaça, cuja compra foi concretizada por alguns bilhões há alguns meses. Marky, para o mundo não parar de vez e todos ao mesmo tempo não ficarem mandando mensagens sem sentido para os outros, coloque ordem nessa zorra. Libere o bichinho apenas para quem coloque em seu status de facebook - completamente apaixonado. Fora disso, bloqueie geral. Paixão e amor, tal qual a guerra, não possuem regras. Nem no Whatsapp.

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Por Francisco Alpendre